Informativo do Grupo Pierre Martin de Espeleologia
Janeiro/Fevereiro - 1992 nº 8


EDITORIAL

O GPME entrou em seu quinto ano esquentando os motores para um 92 cheio de atividades.
Já fizemos topografias, descobertas e turismo, além da gostosa comemoração de passagem de ano.

isto mostra o pique e a vontade de trabalhar que, esperamos, continue por todo este ano, com a nova diretoria.
Neste oitavo Quebra Corpo fizemos uma retrospectiva de nossas atividades no biênio 90-91. E para não perder o rumo, acerte sua bússola e vá em frente!

Provando que tudo está azul, vamos dar um mergulho na Gruta Azul e explorar outros mares e buracos como os de Cajamar e da Onç&a Parda.

Enfim, curta bastante o seu Q. C. nº 8 e tenha um produtivo 1992!

Os Editores


UMA PEQUENA HOMENAGEM
Paulo Gomes

em todas as atividades que a espeleologia abrange, sempre existem aqueles personagens que geralmente ficam ocultos, anônimos ou pouco conhecidos, e cuja importância é tão grande que sem elas , muitos trabaklhos ou descobertas não seriam realizados com o mesmo grau de facilidade ou nem mesmo seriam possíveis ! Dentre estas pessoas, muitos são guias (que auxiliam nas descobertas), pontas de trena (que são fundamentais na topografia), equipes externas (que ajudam principalmente nas atividades de longa duração) e os colegas iluminadores que disparam os flashes e muitas vezes ficam como modelos nas fotografias!

Este texto é uma pequena homenagem a essas pessoas, e como minha principal atividade é a fotografia, não posso deixar de fazer um agradecimento especial aos iluminadores, que já tanto colaboraram e colaboram esforçando-se para se posicionarem melhor, mesmo que seja entre blocos abatidos, sentro d'água, em barrancos ou até mesmo pendurados!

Isso sem falar na paciêencia que elas têm de ter, pois só quem participou de fotografias de longa exposição sabe bem o "saco" que é!

Bem, termino essa homenagem com a certeza de que depois dessa tremenda puxada de saco, essas pessoas vão colaborar bem mais!

Foto


DE BARCO NA GRUTA AZUL

Logo após o natal, fomos com "tia" Celina e lílian para o município de Arraial do Cabo, litoral norte do Rio de Janeiro, a fim de descansar nossas mentes em praias distantes. Não é que ficamos sabendo de uma gruta marinha que poderia ser alcançada de barco? Mais que ligeiro, já estávamos a caminho.

A ilha do Cabo Frio pode ser alcan¸ada de Arraial atravéz de um estreito, onde se avista um belíssimo penedo de aproximadamente 50 metros de altura, parcialmente separado da ilha por uma grande fratura. A Marinha, que mantém bases no local, e só permite acessos com autorizações, inclusive para mergulhos naquele local, vimos altas dunas de areia onde uma &aacutrvore gigantesca jogou uma trama de raízes para se segurar.
A paisagem é interessante, principalmente ao contornarmos a ilha que compõe-se de costões rochosos. Sua rocha matriz, migmatitos (na maior parte), encontra-se intensamente fraturada.

Logo observamos pequenas grutas escavadas pelas águas e eis que surge uma entrada imponente de uns 8m de altura. É a Gruta Azul!
A sensação de entrar numa gruta de barco é algo diferente para nós. A água de um azul profundo motiva-nos a um gelado mergulho.
Segundo o pescador que nos levou, alguns mergulhadores autônomos chegaram a 35m de profundidade e atravessaram uma fenda que se dirige a uma outra entrada iluminada, mas submersa.

Ao fundo da gruta, ondas se quebram e a água sobe por fendas ainda inexploradas, com continuação dividosa. No total, estimamos cerca de 20m de desenvolvimento, com larguras das paredes entre 6 e 7 metros, facilitandoo retorno do barco, Jáa uma certa distância, observamos uma faixa de rochas escuras que se extende acima do teto da gruta, provavelmente um dique de diabásio entre os migmatitos. A ação contínua das ondas do mar, processo conhecido por abrasão marinha foi responsável pela origem desta caverna, através do desgaste diferencial, ou seja, a gradual abertura da cavidade condicionada, principalmente pelo dique de diabásio.

deixando de lados estas análises iniciais, o fato é que o conjunto "Sol, Penumbra, e Água Azul" é algo que vale a pena ser revisto nos planos espeleológicos, para aliviar nossas cabeças empoeiradas e concrecionadas!


NOVAS SOBRE O PROJETO ONÇA PARDA

Depois de várias tentativas de localizarmos alguns abismos explorados pelo "CEU", nós dasanimamos de imaginar onde procurar, jáque as coordenadas não levam a nada.
A Ery e a Hilda sobem a serra da Onça Parda acompanhadas pelo Sr. Didi, que conhece muito bem a região por ter vivido ali quando criança.

O resultado da prospecção é um sucesso: Forma descobertos 7 abismos de uma só vez! Mas a atenção ficou voltada para um deles, que foi batizado de 13 de Agosto.
Outras viagens aconteceram para a exploração e topografia das novas descobertas. Uma equipe sobe a serra do Morro Preto para ver um abismo que poderia ser o Colllet. Uma outra equipe começa a descer o 13 de agosto, enquanto outra segue para conhecer os outros pequenos abismos. Quase ao fim da subida da Onça Parda, encontramos um "dentão" que, através das comparações com uma foto publicada no Espeleotema nº 14 - fig. 11 (sobre o Abismo Ponta de Flecha), constatamos ser um pré-molar de Toxodon platensis . O Abismo foi chamado de "Abismo do Dentão".

O Treze de Agosto prometia muito e nova viagem foi marcada. Exploramos e topografamos todos os pequenos abismos, enquanto uma outra equipe permanecia a 55m, procurando uma forma de descer ainda mais. Um abismo de condutos de rastejamento, lama e muitos ossos de pequenos animais, trazidos pela água da chuva. Este abismo é técnicamente complicado para descer por não permitir a instalação de "spits" pois o calcário é muito quebradiço, obrigando a fazermos amarrações naturais.

O abismo foi explorado e instalado pelo Chiquinho e Wmarley e topografado por Roberto, Caê e Luciano.
Ainda não terminamos a exploração. A topografia ficou a -55 metros e a exploração a -75 metros.
Durante uma meditação que o Ericson fazia pela mata, ele consegue descobrir um novo abismo ao lado do Treze de Agosto, com o qual provavelmente vai se ligar.

A equipe externa resolve pernoitar no paredão, jáque a entrada no "T. A." não era apropriada. Durante a ida para o paredão esta turma descobre mais quatro abismos, mas devido ao avançado da hora resolvem deixar para a próxima.

Esta é, porém, outra história, que a onça ainda não viu.

Participaram das explorações e topografia:
Chiquinho, Wmarley, Roberto, Caê, Luciano, Ericson, Ery, Hilda, Daisy, Paulo, Hudson, Iha, Tonico, Mônica e Filho e Adélia.


SUA BÚSSOLA ESTÁ COM DEFEITO ?

Se você já utilizou uma bússola de boa qualidade e procedência já deve ter notado que o "Sul" da agulha ou disco graduado pende para baixo. Este fato, curioso para um topógrafo se torna muito desagradável, exigindo a cada visada, sutis pancadinhas ou o balanço do equipamento na tentativa de liberar o disco. O resultado é uma topografia mais demorada e talvez mais imprecisa, dependendo da perícia do topógrafo.

Mas seria isto um defeito de fabricação? Com tanta certeza, não, já que esta é uma "doença" que só contamina as melhores bússolas.
Uma bússola possui uma peça imantada que se orienta pelas forças de atração magnéticas que ocorrem entre ela e outro imã muito maior - a Terra. Da mesma forma que limalhas de ferro se alinham em volta de um imã seguindo suas linhas de força (v. figura 1). A bússola se alinha com as linhas de força magnéticas da Terra. Infelizmesnte estas linhas de força não seguem a circunferência da Terra, portanto não são paralelas à sua superfície. (v. fig. 3). Próximo ao polo norte, o "Norte" da bússola é atraído para baixo e no polo sul, ocorre o inverso.

Deste conceito surgiu a definição das Isóclinas: linhas sobre a superfície daTerra em que a bússola teria a mesma inclinação (v. fig. 2).

Nosso país, por estar próximo ao equador se encontra felizmente na região de isóclinas neutras (ME). Mas, infelizmente quem fabrica as bússolas, não. Toda a Europa, os Estados Unidos e Japão estão em região de isóclinas positivas (MN). Para resolver o seu problema, os fabricantes mais conceituados desbalanceiam suas bússolas, ou seja, acrescentam peso no "Sul" de forma que elas fiquem perfeitamente equilibradas. Azar o nosso, porque aqui estas bússolas ficam desequilibradas e pendem para o sul!

A solução é enviar sua bússola a uma assistência técnica e pedir que removam o peso de balanceamento. Portanto, se você for viajar para o exterior, não se esqueça: Leve sua bússola!
Bussola
Por enquanto resta um consolo: se aqui a bússola emperra, para os australianos deve ser um inferno, lá uma bússola européia simplesmente não funciona!

Helvécio C. (28/10/91)


CAJAMAR
Ericson

Cajamar
Feriado do 1º de maio, quarta-feira, e é lógico, período curto demais para uma viagem longa ou até as cavernas de Paranabiacaba, já tendo esgotado todos os esforços no domingo anterior, aproveitei para realizar um desejo antigo:
Conhecer os buracos tão famosos de Cajamar, e até quem sabe explorar ou conseguir informações da existência de cavernas no município.

Chegando ao local dos buracos, uma surpresa: estavam tampados! Segundo o morador local, isto fazia parte da plataforma política do prefeito eleito, sendo que o candidato rival, tinha como objetivo preservar os buracos e transformar o local em parque. Para uma melhor explicação das informações obtidas, preparei um resumo com todas as descrições, o qual se segue:

- Edna Rodrigues - primeira habitante contactada. Ela se mostrou aparentemente alucinada contando uma versão um tanto estranha para a formação dos buracos.
Onde tem buraco ou caverna, a terra é mais fria e foi a respiração da terra que engoliu as casas, as árvores e tudo ao redor. Ela afirma ainda que outros pontos da cidade que não possuem buracos são frios e logo serão engolidos pela terra. ela citou sobre cavernas num local chamado Capuava e Cacupé.

Outro morador (não identificado) citou sobre a existência de cavernas no local denominado Pedreira Gato Preto.
Licélio Mantuanelli, residente à rua Barão do Rio Branco, desconhece a existência de cavernas no município. Falou somente sobre os buracos, afirmando que antes de serem tapados, o Corpo de Bombeiros desceu por um cabo, à profundidade de 80m, sem ter atingido ou visto o fundo. Licélio contou também que os buracos possuiam em torno de 50 x 30m e que sete casas foram engolidas.

Retornando ao centro da cidade, avistei um bar na esquina das ruas D. Pedro I e Rio Branco, e fiz mais alguns contatos, conseguindo as seguintes informações:
Três moradores informaram sobre caverna próxima do bar à rua D. Pedro I pegando uma estradinha de terra até uma capela. A gruta fica nas proximidades.

Informaram ainda, que fosse próxim à prefeitura e procurasse quem já havia trabalhado na pedreira Pires, de preferência os Srs. Tercílio ou Piauí - marteleiros da pedreira (furadores de rocha) e, pedisse que me levassem até a pedreira e mostrassem algumas cavernas, em que ambos extraiam crsitais (conforme a descrição deles, poderia ser espeleotemas) - porém, de acordo com a descrição será necessário o uso de corda para atingir as cavernas, já que as mesmas estão um tanto elevadas por causa das lavras de calcário.

eles também fizeram referência a cavernas na Pedreira Gato Preto. Outros três moradores falaram sobre a Caverna do Morcego, localizada dentro de um sítio de propriedade do Betinho, num local chamado Pedra da Tartaruga dada a semelhança das formas do lugar a uma tartaruga. A Pedreira do Gato foi novamente citada. Obtive a informação também de uma cachoeira - Santa Marta em Porunduva, que segundo eles é muito convidativa a um bom banho!

Como podemos ver. o município mostra-se bastante promissor. Porém se todas essas cavidades realmente existem não devem possuir desenvolvimento muito grande.


CURIOSIDADES - ESTALACTITES SÃO FURTADAS DE CAVERNA
Maria Colla Jan. 92

IPORANGA - A direção do Parque Estadual Turístico do Alto Ribeira (PETAR) denunciou à delegacia de Iporanga, no Vale do Ribeira, o furto de várias estalactites, formações calcárias milenares, do interior da Caverna de Santana. Uma das maiores formações rochosas do mundo. Segundo vigias do parque, o furto teria sido praticado por André Almeida Gonçanves, professor na vizinha cidade Apiaí. Ontem, o professor não foi localizado.

Foram retirados pedaçoes de estalactites de até 40 centímetros de comprimento. Estudos científicos comprovam que serão necessários treze anos (?) para que essas formações sejam recompostas, já que elas crescem no interior úmido das cavernas apenas três centímetros por ano. (N do Q. C. - três décimos de milímetro por ano - valor de referência apenas) Segundo o delegado de polícia local, Hamilton Antônio Gianfratti, o responsável poderá pegar de seis meses a três anos de prisão.

Segundo testemunho dos vigias Benedito rodrigeus e Joaquim Justino dos Santos, o furto aconteceu no dia 23 de dezembro quando o professor entrou sozinho na caverna, contrariando as regras de visitação que estabelecem o acompanhamento de guias. Posteriormente, os vigias constataram a depredaç&atildeo e não tiveram dúvida em responsabilizar o professor, pois os demais visitantes do dia estiveram acompanhados.

A responsável pelo parque, Eida Marisa Salaloli, que acompanhou a formalização da ocorrência, disse a Agência Estado que as denúncias sobre devastação no PETAR ajudarão a coibir os abusos cometidos por turistas. A fiscalização dos 35 mil hectares do parque, que conta com 180 cavernas cadastradas, é feita por apenas 8 vigias.

Eida Salaloli afirma que o aumento significativo do número de visitantes - 16 mil pessoas estiveram no PETAR no ano passado - contribui para aumentar também os problemas estruturais do parque.

As agressões ao PETAR preocupam especialistas como o espeleólogo Zélio Augusto Vaz de Figueiredo, do Grupo de Estudos Ambientais da Serra do Mar (GESMAR): "Se todo mundo começar a arrancar pedacinho de estalactite como lembrança, as futuras gerações não terão mais acesso às riquezas naturais".

O Estado de São Paulo - Jan. 92