Informativo do Grupo Pierre Martin de Espeleologia
Maio/Junho - Julho/Agosto - 1991 nº 6

EDITORIAL
por Ericson C. Igual

Um Ano!!
Cada edição já é uma festa e até um sonho a mais realizado para todos que confeccionam e colaboram com o nosso Quebra - Corpo. Para nossos leitores, apenas o clima de informação é passado, e, sendo este o objetivo, missão cumprida!
Porém, estamos em festa e queremos passar este espírito para todos: Espeleologia também se faz com informação. E o Quebra - Corpo é o veículo do Grupo Pierre Martin.
Aproveitamos para agradecer àqueles que de alguma forma participaram, enviando matérias, anúncios, opiniões e, claro....Lendo!
Por isso, desejamos ao Quebra - Corpo, um

FELIZ ANIVERSÁRIO!


MÍSTICA DE UM ESPELEÓLOGO
Rosemary Pinheiro Amabile

Mãe Terra, saúdo-te diante de tua fenda
e espero tua manifestação,
teu consentimento
para penetrar no teu ventre, na tua alma.

Anseio conhecer as origens do teu mistério.
Anseio conhecer tesus seres
Ouço lendas sobre teus elementais,
teus gnomos guardiães.

Mãe Terra, acolhe-me e me faz saber
dos teus segredos.
quero compactuar contigo.
Mãe Terra, acorda-me da ignorância
Seja feita a iniciação
Eis-me neófito no portal das grandes
revelações.

Fazem com que na árdua jornada
de aprofundar-me em ti
me seja dado contactar com o conhecimento
saber respeitar e guardar os teus
tesouros.

* retirado do livro "Ensaio IV - Grupo Poeco - Só Poesia, 1980 - Planimpress
trazido pela "Terezinha", participante de viagens ao PETAR.


EXPEDIÇÃO ESPÉLEO PIRÂMIDE
Este é um breve relato sobre a viagem inter estrelar que fizemos até a cidade de São Tomé das Letras - MG. Durante os dias 08 e 09 de junho, juntamente com a turma de geógrafos esotéricos da PUC- SP.
Pretendemos antes, porém, previnir os que pretendem visitar o lugar alertando para o desgaste em que se encontra a cidade em si, contrastando muito com o chamativo turístico.
Bem, deixando de lado os contra-tempos, o mais importante é que visitamos duas belas grutas em arenito: a do "Carimbado" e a da "Bruxa".
A gruta do Carimbado é incrível, uma galeria com cerca de 0,5m de largura por 2m de altura, mostra-se bem tortuosa e em certos trechos reduz-se a verdadeiros querbra-corpos (que me perdoem os editores). Penetramos na "bicha" por cerca de 450m com alguma dificuldade, pois a circulação do ar lá dentro era muito baixa, somando-se a isso a nossa iluminação que não era muito adequada à prática de espeleo (estavam todos com lanterninhas elétricas).
O nome dado à gruta é bem característico e todos puderam convencer-se do porquê. Sairam todos "carimbados" com o guano dos morcegos alienígenas. Interessante também é a lenda atribuída à gruta, de que sua galeria vai dar na cidade Inca de Machu-Pichu, no Peru, que por incrível que pareça também tem uma gruta com a mesma atribuição, ou seja, suas galerias vêm até a Gruta do Carimbado!
Nós até que tentamos chegar lá no Peru, mas o problema é que num dado momento uma força sobrenatural atraía-nos a um bar na cidade, onde autoflagelamo-nos com cerveja e panquecas, e pouco depois fomos torturados com mantra indiano e obrigados a reverenciar o pôr do Sol.
O frio e o fraco movimento de discos voadores colaboraram para que fôssemos dormir mais cedo para conseguir acordar no domingo de manhã.
Então, lá pelas 9:00h fomos teleportados na carroceria de um Chevrolet 72 até um lugarejo chamado pelos feiticeiros locais de sobradinho, onde depois de uns 20min de caminhada chegamos na principal entrada (são 7, segundo o guia que nos acompanhou) da Gruta da Bruxa.
Fantástica! com várias galerias, sendo que a principal é cortada por um pequeno córrego e segue em plano horizontal até dar num espaçoso salão de uns 10 metros de altura interrompido por um abismo com cerca de 8 metros de profundidade; o que não pudemos prosseguir pela indisponibilidade de material de vertical, iluminação adequada e material de levitação!
Dentro dos salões também identificamos vestígios de uma civilização (que após consultadas algumas fontes) revelou-se como Manchetis imbecilium famosa por seus hábitos inconsequentes.
Para finalizar, alguns dados que achamos interessante passar:
A Gruta do Carimbado foi cadastrada na SBE com 220m de desenvolvimento pelo Grupo Bambuí. A Gruta da Bruxa, apesar de ser "famosa", não é cadastrada e pelos nossos cálculos superficiais passa dos 500m. Além disso, fivamos com referencias de, mais outras duas grutas também inéditas no cadastro. E não é só! Em recente conversa com o Daniel. que já esteve na região, soubemos que existem outras grutas pouco ou nada exploradas na região.
Então, moçada, vamos à luta!
São "apenas" 4 horas e meiade viagem (exceto algumas eventualidades) além de tudo,o lugar é lindão...

saudações espeleológicas
Daisy e Caê


ABISMO DA FERRUGEM
Em pleno carnaval de 90 (dia 26.02) Maurício Grego, Maurício Marinho e Xisto guiados pelo companheiro Joaquim Justino. após uma longa caminhada, resolvem seguir o curso de um pequeno córrego até seu sumidouro. Ao fundo de uma dolina avistaram um paredão de cerca de 8 metros de altura, em cuja base abre-se o Abismo da Ferrugem, nome relacionado aos blocos desta coloração próximos à entrada.
O trecho inicial do Ferrugem é marcado por uma galeria estreita e verticalizada (alturas entre 2 e 10 metros), com a presença de cascatas d'água, além de diminutas galerias afluentes com condutos superiores, ambos arredondados.
A 60m da entrada, encontrou-se o 1º poço, e para espanto geral, uma equipagem abandonada e em péssimo estado de conservação, deixada ali pelo espeleólogo Sérgio Beck em uma exploração parcial da caverna, fornecendo ao GPME, informações básicas sobre o trecho percorrido.
Retornando por outra trilha bastante fechada rumo a roça do Seu Juvenal e nesse meio tempo, o Xisto foi atacado por enormes vespas e gritava alucinadamente.
Após percorridos 500m do Ferrugem, Grego anunciava a descoberta de outra caverna: "A Gruta Muçurana" batizada assim graças a uma cobra muçurana encontrada no caminho.
Entre os dias 25 e 27/01/91, a segunda investida ao Ferrugem contou com Caê Chico, Grego, Luciano, Maurício e Xisto, que dividiram-se nos trabalhos de topografia e a necessária reequipagem dos lances verticais. A descida do "Poço Ponta de Faca" é feita ao lado de uma cachoeira (que molha até a alma!) até um desvio a 15m de desnível, sendo que o trecho final é repleto de Lapiás cortantes, totalizando 30 m de desnível sem fracionamentos.
O percurso segue pela rede do "Escorrega mas não Cai", representada por galerias estreitas e encachoeiradas, com quebra-corpos, chaminés, e pequenas piscinas, num percurso de 40m, até o seguinte poço, que se abre para o salão de dimensões gigantescas.
Após a reequipagem, Marinho desce um lance livre de 23 metros e explora um pequeno trecho do grande salão. O barulho intenso da cachoeira impedia o diálogo com a equipe e foi somente através de latidos e uivos que obteve resposta, inovando a comunicação em espeleologia! Logo depois, ele subiu e reuniu-se a equipe e decidiram retornar ao rancho da "Nhonholândia" (base de apoio), devido ao cansaço geral da equipe (15 horas de atividade), não sem antes batizarem o "Poço do Cachorro Louco" (ou Crazy Dog).
Após uma série de tombos na trilha molhada e o merecido descanso, retornaram ao Ferrugem no dia seguinte, com visíveis sinais de enchente (volume d'água e circulação de ar), e após uma reunião geral, resolveram terminar por ali a expedição, recolhendo as amarrações e despencando em tombos e gargalhadas até a Nhonholândia e ao Bairro da Serra.
A terceira incursão realizou-se nos dias 29 a 31/03/91 com Luciano, Maurício Marinho e Wmarley. Depois de uma exploração frustrada em Pérolas e a descoberta de mais um abismo, no dia 30, já estavam de volta ao Poço "Crazy Dog", melhorando a equipagem e retirando um pequeno atrito existente. Desceram ao salão "Rolling Stones", topografando a maior parte deste que é formado por blocos abatidos e na maioria instáveis, somando área superior a 8000m2.
Abismo Ferrugem Após abrupta ascenção através dos blocos, passando por espeleotemas localizados (estalagmites, estalactites, escorrimentos de calcita e represas de travertino), a equipe chega a um grande ressalto, o "Patamar Terremoto" com 70 m de largura e desenvolvimento médio de 20 m com chão bastante argiloso e profundas rachaduras no teto destacando-se cortinas e estalactites brancas. O gotejamento existente na fenda do Pinga de Leve, abasteceu os reatores e as línguas sedentas dos exploradores, antes da descida cautelosa para o lanche que aguardava ansiosamente ser devorado.
Após a amarração da topografia com a expedição anterior, Maurício e Wmarley iniciam rapidamente exploração próximo à cachoeira, por entre blocos abatidos e após algumas tentativas, Marinho descobre uma passagem em chaminé (5m de desnível) não seguido por Wmarley devido ao "descolamento" da sola de seu tênis. Nesse meio tempo, Luciano descansava junto aos blocos e sua chama aumentou tanto (a do capacete!!) que este derreteu, desprendendo o seu sistema ecleiragé no momento em que seus companheiros o encontravam. Após a lenta subida e uma caminhada de quase quatro horas, foi somente no acesso ao núcleo Santana que conseguiram carona até o Bairro da Serra.
A quarta espedição ao Ferrugem, ocorreu entre os dias 30 e 31/05/91, sendo o grupo composto por Chico, Luciano, Marinho e Wmarley. Após um cochilo na "Rede Sepultura", seguiram para o salão Rolling Stones cuja descida foi tranquila, devido ao reduzido volume de água das cachoeiras e continuaram a exploração abaixo da chaminé e os caminhos explorados anteriormente. Instalando a preciosa corda de 6mm, Wmarley venceu um quebra-corpo em vertical, descendo 4 m, e em seguida a equipe se divide "fuçando" os blocos até que Marinho abre passagem por entre os blocos, prosseguindo por um ressalto de 4m. Até um pequeno salão. Depois de inúmeras tentativas dos exploradores, foi a vez de Chico descobrir uma esterita passagem por entre os blocos, contando com vários quebra-corpos até um micro salão.
Foram 3 horas em que Chico e Marinho se revezavam em pancadas (com pedras e pés), pequenas limpezas e o auxilio de fitas, até conseguirem deslocar um bloco e alargar, assim a passagem. Por infelicidade geral prosseguiram por apenas 2,5m de desnível, havendo a possibilidade de novas desobstruções ou a exploração de outros caminhos, mas certamente com grandes dificuldades, neste setor.
De volta ao salão Rolling Stones, após a topografia do trecho reconhecido, o segundo lanche foi fortalecido por leite quente com conhaque devolvendo ânimo para a subida. Na galeria da entrada, de repente o fogareiro yanes começou a vazar no fundo da mochila e após as chamas serem apagadas, foi imediatamente levado para fora.
Faziam cerca de 24 horas em que a equipe desenvolvia atividades ininterruptamente e o cansaço e sono derrubaram todos. Já de início erraram a trilha da volta e seguiram por outros caminhos desconhecidos e nesse vai e vem, perderam-se por duas horas até encontrar o rumo certo.
Na Nhonholândia, quase foram atacados por cachorros dos caçadores que utilizam o rancho. Para se ter uma idéia do cansaço da moçada, Chico e Marinho se perderam na trilha para pegar água! Finalmente chegam ao Bairro da Serra à noite. (de carro dessa vez)
Por ora resolvemos dar um tempo ao Ferrugem, mas qualquer dia destes retornaremos ao salão Rolling Stones na tentativa de novas explorações por entre os grandes blocos abatidos e nas laterais do salão, para, quem sabe descobrir uma possível galeria horizontal. Observando o desenvolcimento do Abismo da Ferrugem e sua drenagem, uma pergunta que fazemos é:
A qual sistema cárstico ele pertence: Pérolas - Santana ou Furnas?
Mas isto é uma outra história...

Maurício Marinho


ERAM OS GREGOS ESPELEÓLOGOS ??
por Helvécio

Usando de bom senso, a maioria dos espeleólogos faz suas topografias com grau B, o que significa que as distâncias a direita, a esquerda e abaixo de cada base são apenas estimadas, não medidas. Cada topógrafo tem uma noção dos limites para sua avaliação, mas em geral, uma distância lateral que vá além dos 6 metros, já justifica uma trenada ou, até mesmo, a marcação de uma base. Para baixo ocorre o mesmo com vantagem de se poder contar com a Lei da Gravidade para levar a ponta da trena até lá. Mas...e para cima?!
Você, como eu já deve ter pensado a respeito, muitas vezes um grande e alto salão ou uma galeria com parades verticais fica nos incomodando, pedindo uma avaliação mais precisa de sua altura, pelo menos em um ponto! Mas como? Já houve quem apelou para balões de gás, outros sonham com produtos de alta tecnologia (lazer, ultra-som, etc) que talvez nem tenham sido inventados.
Assim, em algumas situações fica uma vontade contida de escalar paredes e levar a trena. Exagero? Não para quem tem como meta um trabalho bem feito.
Para estes espeleólogos informo o lançamento de um instrumento de última geração, barato e simples - chama-se "lanterna", já ouviu falar? Pois este aparelho em conjunto com uma ferramenta um pouco mais antiga, a geometria (aquela dos gregos, lembra?) forma uma combinação que não ajuda, resolve!
Para se avaliar a altura de um ponto do salão basta localizar no teto um acidente ou uma ornamentação e impor uma visada que passe "exatamente" abaixo deste ponto. O ponta de trena, com uma lanterna potente, ilumina o ponto. O topógrafo na base anterior mede a inclinação (ver figura 1) desta base até o ponto (o azimute não é necessário pois é igual ao da visada já feita). O topógrafo se move até o ponta de trena, na base seguinte, e, antes de fazer a próxima visada mede com ajuda da luz do ponta de trena, novamente a inclinação (figura 2). Assim, na coluna "observações" da caderneta você terá da base "N"para o ponto "P" inclinação "X", da base "N+1" para o ponto "P" inclinação "Y".
Ótimo! Mas cadê a altura?
Com uma simples trigonometria é só calcular:

H = D x senX x (sen( I + Y ) / sen ( X + Y )) + Ht

onde:
"H" = altura do ponto "P" em relação a base "N",
"D" = distância (trena) de "N" para "N+1",
"I" = é a inclinação de "N" para "N+1" (não esqueça o sinal),
"sen" = é a função trigonométrica seno.

E o ponto "H" onde está ?
Na vista em planta ele deve ser colocado sobre a visada de "N" para "N+1" a uma distância "L" da base "N".

L = H / tangX

Gregos Complicado ? Pode ser, mas garanto que dá menos trabalho que levar um balão de gás na mochila por duas horas de trilha, até um salão a 100m de profundidade e, por fim, descobrir que o balão furou. Além disto, o trabalho fica para casa, onde você não estará com frio, fome, cansaço...

Nota 1: Para quem gosta de geometria existe um método mais preciso, com três bases no chão e um ponto central no teto. Define-se um Tetraedro. Só que calcular...
Nota 2: Como vocé acha Que são "medidas" as estrelas? Adivinhe.

Helvécio - GPME (grato ao Maurício e ao Luciano pela idéia e inspiração)


CURIOSIDADES - HOSPITALIZADO HOMEM QUE VIVIA EM CAVERNA
Atendendo solicitação de Agostinha Costa, soldados do Corpo de Bombeiros localizaram ontem num cerrado do distrito de Batatal, município de Diamantina, Januário Vital Costa, 46 anos, que há 12 vivia em cavernas da região e que se alimentava de cobras e lagartixas. Em precário estado de saúde, Januário foi levado para o Hospital Municipal de Diamantina e posteriormente trazido para Belo Horizonte. O "Homem das Cavernas", como é chamado pelos moradores da região, negava-se a retornar à comunidade.
Agostinha Costa, moradora da região, preocupada com Januário, várias vezes tentou trazê-lo de volta ao convívio da comunidade mas jamais conseguiu convencê-lo. Ontem ela resolveu apelar ao Corpo de Bombeiros.
Os soldados tiveram muito trabalho para localizar Januário. Ele vivia de caverna em caverna e sempre se mudando. Ele disse nos últimos 12 anos alimentou-se de cobras e ratos.

"O Estado de Minas" 30.06.91