Informativo do Grupo Pierre Martin de Espeleologia
Janeiro/Fevereiro - 1991 nº 4

EDITORIAL
Evolução, estigma da raça humana, quanto mais se evolui, a tendência é a procura do patamar superior, consequentemente a necessidade de profissionalismo atinge diretamente todos os setores da sociedade. Mas até que ponto esta evolução levará a nossa raça humana? Talvez à condição de robôs de carne e osso, em que a competitividade vai ser a base da sua existência. Não podemos ser contaminados por este mal competitivo. E é evitando esta febre que tentamos levar este órgão de divulgação. Recebemos diversas opiniões, elogios e críticas e até algumas reclamações em relação à sua forma de apresentação. Todas foram bem-vindas e analisadas com a devida atenção que mereceram.
Mas o que importa realmente é que o objetivo divulgação está sendo cumprido (e bem!) de uma forma que acreditamos ser original. Entendemos também que a forma artesanal de apresentação do nosso boletim, não deixa de ser profissional, pois a arte cultiva uma forma sutil de expressão, que não deixa ninguém indiferente.
Além de firmar como ponto base a divulgação, o bom senso é fixado a título de qualidade.
Este mesmo bom senso levou-nos a dispensar maior atenção a questão "1º socorros" (despertado pelo "incidente" com o colega Wagner) que passará a ocupar uma seção do nosso boletim informativo a partir deste número.
Lembramos que às vezes alguns acidentes podem ser evitados. É só uma questão de bom senso!

Os Editores
março 1991


EXPEDIÇÃO ONÇA PARDA
Um dia não foi sufuciente para descansarmos da tão tumultuada "espéleo - enchente - viagem". Além do congestionamento e muita água, o ônibus que trazia alguns integrantes só chegou no sábado à tarde.
Domingo de manhã saímos para a tão conhecida trilha de 4 Km em subida, rumo ao paredão da Onça Parda. Este foi o local adotado como Q.G. de operações do grupo para a região em estudo.
O objetivo principal da expedição era "pegar" o Luizinho (morador da região) de surpresa para mostrar-nos alguns abismos que ele diz conhecer.
Quando chegamos, os cachorros latiram, mas o Luizinho mais uma vez não estava lá. Resolvemos esperar até o dia seguinte, como ele não apareceu dividimos a equipe de 7 pessoas em 2 grupos.
O primeiro tentaria explorar além dos 75m de desnível já conhecios do Abismo do Paredão da Onça Parda. O segundo seguiria o rio que entra no paradão até a sua ressurgência, fazendo uma prospecção da casa do Luizinho em direção à Vargem Grande. Este grupo constituído por Chiquinho, Ery e Tonico desceu o abismo mas não conseguiu evoluir além do já conhecido em ouutras expedições. "Parece que a coisa acaba ali mesmo". O segundo grupo constituído por Wagner, Paulo, Monica e Roberto, teve um pouco mais de azar! Além de não achar nada, ainda voltamos para o paredão com um sério problema; o Wagner acidentou-se com o facão ao abrir uma antiga trilha. O resultado foi um corte na perna de aproximadamente 4cm de comprimento, por 1 cm de profundidade.
Após os primeiros socorros, encerramos a expedição e voltamos para o Bairro da Serra. Já em Iporanga, Wagner recebeu o atendimento médico necessário. Vale salientar o atendimento de primeiros socorros prestados pelo Paulo e posteriormente pelo Chiquinho, com cuidado e seriedade por parte de ambos. Não poderia deixar de comentar a postura e o bom humor da parte de Wagner, sem os quais teria sido bem mais complicada a solução do problema.
Assim, o GPME já está em contato com o chará Montes, para empréstimo da perna de pau!

Roberto Rodrigues

Veja - Projeto Onça Parda
Novas sobre o projeto
Projeto na região da Onça Parda.


O CARSTE EM ROCHAS CARBONÁTICAS
Maurício Alcântara Marinho

É nas rochas carbonáticas que o carste se apresenta mais diversificado e com maior expressão regional, em termos mundiais, devido principalmente a alta solubilidade e resistência mecânica, em comparação a outras litologias. Estas rochas possuem em sua composição mineralógica mais de 75% de minerais carbonáticos (porção solúvel) e o restante considerado "impurezas" na maior parte argilas e quartzos (porção insolúvel). Entre as variedades mais importntes de rochas carbonáticas, destacam-se os calcários e dolomitos, que apresentam comportamentos distintos no que diz respeito aos processos cársticos.
Como já foi visto anteriormente, entre outros fatores primordiais para a cartificação, as rochas carbonáticas deverão apresentar permeabilidade secundária, basicamente a presença de fraturamentos e planos de estratificação, sem o qual "a dissolução se processa de forma regular e homogênea, impedindo o processo de carstificação." ( Karmann & Sanches, 1979 )
O processo de corrosão (ou dissolução), representa o principal condicionante genético das formas cársticas, sendo que nos calcários e metacalcários, este se manifesta, grosso modo, da seguinte maneira:
A água pluvial (ou meteórica) , ao atravessar a atmosfera, retém o gás carbônico, formando o ácido carbônico, conforme a reação simplificada:

H2O  + CO2 <---->H2CO3
(água) - (gás carbônico) - (ácido carbônico)


Esta solução "agressiva" ao entrar em contato com o calcário, reage formando bicarbonato de cálcio (solúvel), segundo a reação:

H2CO3 + CaCO3 <----> Ca(HCO3)2
( -ácido carbônico) -(Carbonato de cálcio) (bicarbonato de cálcio)


Da ação da água meteórica em superfície e sub-superfície, originam-se por exemplo os lapiezamentos (caneluras de dissolução) e dolinas de dissolução, esta tornando-se mais "agressiva" pela incorporação de CO2 existente na atmosfera do solo e dos ácidos provenientes da decomposição da matéria orgânica. Esta reação é reversível, devido ao caráter instável do bicarbonato de cálcio, podendo haver a recristalização de minerais carbonáticos e outros, formando os espeleotemas (depósitos químicos).
Quanto maior a pressão parcial de CO2 na água, maior será a capacidade de dissolução, até que esta se sature. O encontro de águas saturadas, em diferentes concentrações, conforme demonstrado por Bögli (1964, apudi Jennings 1987) provocam a corrosão de misturas, ou seja, a solução se torna novamente insaturada e agressiva permitindo a dissolução de mais carbonato.
Outro fator importante, no caso de rochas carbonáticas, seria que as águas de temperaturas mais baixas, tem uma potencialidade maior de reter gás carbônico, temperaturas maiores aceleram a dissolução, porém, diminuem CO2 dissolvido Kohler, 1988)
As soluções, à medida que percolam o maciço rochoso, através dos planos de descontinuidade, vão construindo espaços subterrâneos que se alargam, permitindo um maior fluxo de soluções e consequentemente o aumento dos processos atuantes. Surge o endocars te, que abrange cavidades subterrâneas de diferentes dimensões, destacando-se as cavernas com maiores diâmetros.
Tanto o endocarste (formas subterrâneas) como exocarste (formas superficiais) possuem dinâmicas específicas, mais com uma certa inter-relação, que é mais ou menos perceptível dependendo do caso.
Como já foi visto, a tipologia cárstica no caso das rochas carbonáticas, apresenta-se muito diversificado devido às inúmeras condicionantes e variáveis envolvidas.
Buscando as classificações propostas para discriminação de carstes em rochas carbonáticas, encontram-se diversas classificações dirigidas para enfoques como: Hidrologia, Geologia estrutural, Geomorfologia e outros, em que se apresentam modelos gerais, cujas bases conceituais foram estabelecidas para regiões de clima temperado, o que no caso do Brasil e de outros países de clima tropical são de aplicação aproximada e, devendo haver um certo cuidado para a adoção de uma classificação. Através do desenvolvimento de pesquisas em carstes tropicais, o conhecimento deverá ser aprimorado para um maior entendimento sobre o assunto.

Bibliografia consultada:
Jennings, J.N. "Karst Geomorphology"Ed. Basil Blackwell- Oxford, 1987
Karmann, I, e Sanches, L.E.
Kohler, H.C. - "Forma, Gênese e Evolução dos relevos cársticos" UFMG/ Museu de História Natural / Depto. de Geografia - Belo Horizonte, MG, 1988.

Veja - Carste e pseudocarste