Informativo do Grupo Pierre Martin de Espeleologia
Novembro/Dezembro - 1990 nº 3

EDITORIAL
O final de um ano é momento para análise e revisões.
O começo de outro é época para resoluções.
Por isso, este número tem como marca registrada, a diversidade ao se fazer espeleologia. Nossas divertidas viagens, a teoria e a prática, a poesia e a ciência, tudo isto é espeleologia!
O GPME fez isso tudo, marcando com produtividade o ano de 1990. Cresce o grupo, ampliam-se nossos conhecimentos e o bom senso fixa como fundamental que o que importa é fazer espeleologia!
entrando no quarto ano de existência, só queremos uma maior atuação e novos encontros.
Como resolução, vamos trabalhar e aprender mais sobre cavernas.

CONCEITUAÇÕES GERAIS SOBRE CARSTE E PSEUDOCARSTE
por Maurício de Alcântara Marinho

O termo carste ou carst deriva do vocábulo "kras", que significa "campo de pedras calcárias", designando a região noroeste da Iugoslávia e nordeste da Itália, que se localiza na península de Istria, ao norte do mar Adriático. O carste, antes restrito a regiões calcárias com características semelhantes ao modelo anteriormente apresentado, se extende atualmentea outras rochas solúveis (em condições específicas) como dolomitos, evaporitos, quartzitos, etc. A corrosão provocada pelas águas superficiais (meteóricas) e subterrêneas (vadosas e freáticas), representa o processo morfogenético mais importante na definição de carste.
Existem determinados condicionantes para a elaboração do carste, sendo a composição mineralógica da rocha solúvel, sua estrutura (acamamento, fraturamento, etc.), espessura, e localização topográfica, o clima atuante, a vegetação e solos existentes, os principais fatores no modelado destes relevos. A variação nestes componentes, na escala de tempo-espaço, modifica a intensidade ou mesmo a forma de atuação dos processos morfogenéticos existentes, acarretando na criação de inúmeras tipologias cársticas.
A denominação pseudo-carste se refere a áreas onde ocorrem feições semelhantes ao carste, cuja origem se deva a outros processos como eluviação mecânica (em perfis de solo), abrasão marinha e outros. Nestas áreas, a corrosão química (ou dissolução) possui uma função subordinada aos outros processos, ou seja, "o volume dos produtos despojados não é removido como soluto no sistema de drenagem, que é a maneira característica do carste" (Jennings, 1987)
Incluir-se-ia na classificação de pseudo-carste por exemplo, as formas principalmente subterrâneas presentes em granitóides, (granitos, gnaisses) basaltos e outras rochas vulcânicas, rochas intempéricas (bauxita, lateritas, cangas, etc) entre outras litologias. Contudo, são poucos os estudos no sentido de estipular uma cassificação em função da gênese destas formas. Este fato, reforçado a pontos de vista diferenciados sobre o assunto, dificulta sobremaneira a distinção entre carste e pseudo-carste,a nível mundial.

Bibliografia consultada:
Jennings, J. N. "Karst geomorphology" - Ed. Basil Blackell - Oxford, 1987
Kohler, H. C. - "Forma, Gênese e Evolução dos relevos cársticos" - UFMG. Museu da História Natural/ Departamento de Geografia - Belo Horizonte , MG, 1988

Veja - Carste em rochas carbonáticas


GPME EM CAMPESTRE - MG
por Marcos A. M. Xavier

Distantes da empoeirada paulicéia e bem mais do PETAR, nosso grupo verdadeiramente embriagado pela enlouquecedora idéia de se aventurar por novos rumos, decide botar o pé na estrada em direção au sul de Minas Gerais, mais exatamente a Campestre, descrita como sendo um lugarejo formado por 15 ruas e provavelmente com um certo grau de isolamento do mundo urbano, um paraíso isolado, talvez.
A saída se deu na manhã de um sábado. Equipados com mapas, bússola, clinômetro e equipamento fotográfico, iniciamos nossa jornada ao desconhecido que com certeza nos revelaria surpresas. O grupo formado por dez pessoas ( Chris Iha, Marcelo, Helvécio, Luciano, Wmarley, Ericson, Xisto, Paulo e Maurício - além de mim) seguiu então dividido em dois carros e, apesar de alguns aborrecimentos, desentendimentos, tiroteios, palavões, porradas, etc...conseguimos chegar a pacata cidade, formada por 15 ruas principais e dezenas de outras bem movimentadas com bares, carros e até mesmo clubes, onde podia-se curtir desde os atuais sucessos internacionais à nossa lambada.
Finalmente nos instalamos num "Hotel 5 estrelas" localizado no centro da cidade e após termos obtido algumas informações dos moradores sobre algumas grutas, passamos pelo que foi considerado pela cidade como sendo uma verdadeira metamorfose. Nossas roupas e equipamentos fizeram com que fôssemos confundidos com caça-fantasmas, cientistas loucos, bombeiros e até mesmo, (quem sabe?) extraterrestres!
Seguimos para a região do Rio do Peixe onde encontramos as pequenas e lendárias cavidades de Campestre onde topografamos nossa primeira gruta fora do estado de São Paulo. Apesar da região não ser tão rica em cavernas quanto esperávamos, e de sua formação não ser de calcário, o grupo não desanimou e mostrou que está pronto para qualquer parada.
Mas, fora do mundo espeleológico o que nos surpreendeu foi a grande receptividade daquela gente que não sabia o que aqueles estranhos faziam ali, mas que se interessou em conhecer nosso trabalho e nos incentivou, fazendo questão de conhecer os resultados de nossas investidas e querendo saber se voltaríamos.
Conhecemos muitas pessoas e fizemos muitos amigos, que tornaram inesquecível nossa passagem por Campestre.
Com a certeza da alegria de cadastrarmos nossa primeira "MG" e de nossos novos amigos, Campestre tornou-se uma importante página na história do
Grupo Pierre Martin de Espeleologia.


CAVERNA ENCANTADA

por Acácio José de Oliveira *, 1990

Que linda caverna que eu contemplei
Existe pedra bonita onde pisei
Passa também a água que eu me banhei
Também tem ouro e prata, mas não garimpei.
O encanto da Natureza eu já sei,
Foi cristo que criou one eu cheguei,
Não existe homem que esta coisa cria,
Eu não duvido do poder de Deus,
Nem sequer um dia,
Que se trouxe neste mundo
Uma grande alegria.

EMOÇÃO DE CHEGAR

por Acácio José de Oliveira *, 1990

Na caverna tem peixe, eu quero confessá
Também as aranhas moram lá
Tem coisas bonita prá gente ademirá
Por isso o povo da cidade vão visitá
Felizes ficam todos na hora de chegá
Quem vai uma vez logo quer voltá
De tanta saudade que não vai suportá.

* Acácio José de Oliveira trabalha como vigia no PETAR, e, como contou-nos Cláudio Mandolini (ex-administrador do parque), há vários anos vem escrevendo poesias musicalizáveis, abrangendo entre outros temas a defesa à Natureza e o trabalho no PETAR.


UM PONTO GEOGRÁFICO ?
por Marcos A. M. Xavier

Atualmente, muito se fala em ecologia, natureza, matas e cavernas, as quais nos fazem cometer verdadeiras loucuras. Mas o que nos leva, caros amigos, a muitas vezes comprometermos todos os nossos preceitos e anceios, para nos aventurarmos a conhecer e conviver com um mundo tão alheio ao nosso?
Provavelmente alguns dirão que é por toda a aventura, outros dirão que é o amor pela natureza, mas existem aqueles que com certeza dirão isso tudo somado a grande vontade de construir algo de importante para a comunidade humana. Realizando um trabalho que visa a preservação e a realização interior de estar colaborando para uma melhor convivência entre o homem e o que existe à sua volta. É justamente sobre esses últimos que pretendo falar.
Para estas pessoas ora chamadas de cavernistas, ora espeleólogos, as cavernas são muito mais do que um simples ponto onde se cruzam latitude e longitude, na realidade são grandes fontes de inspiração para as realizações de sua vida. Elas passam a ter corpo e alma a qual se funde a vida do espeleólogo, fazendo com que seja capaz de fazer tudo para se empreender no meio da mata a sua procura.
Muitas vezes os espeleólogos levados por essa paixão, passam a defender seus ideais com unhas e dentes. Mas são muito diversificadas essas idéias e ao passo que se tornam cristalinas acabam por tomar um corpo de tamanha forma que acaba gerando discussões que levam os aventureiros a entrarem em discordância, que se não for dosada da devida maneira, faz com que estes caminhem num vazio que os afastam da grande força central que os levou a se reunir como grupo.
Evidentemente a espeleologia não é feita apenas por trilhas, mapas, bússolas e clinômetros, mas com certeza e, muito menos, por discussões burocráticas que se não forem bem direcionadas por todos acaba por perder o trabalho.
Na realidade é necessário dar andamento aos trabalhos e à medida que estes forem se desenvolvendo, criar espaços para a maior participação dos componentes de um grupo e dinamizar idéias práticas de comum acordo. Porém nós podemos esquecer de todas estas discussões são nada mais que uma passagem destes espeleólogos, que mais cedo ou mais tarde os levará a um amadurecimento.
De momento fica apenas a sugestão das pessoas seguirem com seus projetos a frente e criar novos projetos visando a participação de todos desde a idéia até a sua realização. É necessário retomarmos nossos ideais e fazermos com que cada vez mais as cavernas deixem de ser uma simples coordenada se tornando "ponto de encontro" desses loucos que um dia decidiram seguir seus sonhos.


EXPEDIÇÃO ESPÉLEO PIRÂMIDE
É isso aí. Segundo informações da colega Ana Vitória do CEVIP - Centro de estudos Vitalícios Paracelso - existiam algumas cavernas inexploradas em seu sítio, que funciona também como base de estudos avançados e pesquisas do CEVIP, no município de Mairiporã.
Já possuíamos anteriormente a informação de um sumidouro que ressurgia centenas de metros a frente, porém o informante não soube definir o local e pelas descrições da colega, não havia dúvida: Tratava-se de Calcário.
Tomados pela euforia, por uma crise de abstinência de guano e pela febre de calcário, partimos para uma expedição da 5º dimensão. Nossa viagem cósmica de São Paulo a Mairiporã que normalmente levaria uma hora, conseguiu atingir quase 3 horas, por motivos de força maior. O colega Paulo não estava acostumado com sua nave VW 1600 e a mesma, por estar com seus propulsores carecas, a ponto de se ver a lona, necessitava constantemente de borracheiros paranormais. Após uma operação tartaruga, atingimos nossa base geodésica em um dos pontos mais altos do município que funciona como uma zona azul para ovnis, e logo nosso sexto sentido aguçado concluiu: Aqui não tem calcário.
Mas ávidos por uma exploração na 5º dimensão, prosseguimos. Nossa guia espiritual levou-nos até a área de ocorrência das cavernas e infelizmente tivemos a certeza de que não se tratava de calcário, mas sim de quartzito. As cavernas eram somente blocos amontoados com pequenos vãos entre eles. Mas como a teimosia não faltava a nenhum elemento do grupo, fuçamos toda a montanha e saímos vitoriosos (em termos) com a descoberta do "Abrigo Esotérico" com nada mais nada menos que 2,5! (se você pensou em quilômetros, engano seu, são metros mesmo).
Enfim, às 13h já havíamos encerrado as prospecções e partimos para a mordomia: comida pronta, rede de dormir e muito sol. Certos de que voltaremos ao sítio, em outras expedições "à la Skol"!
Apesar dos insucessos desta primeira investida em Mairiporã, continuaremos à procura do calcário e do tal sumidouro no promissor município.

por Ericson Cernawsky Igual, julho de 1989