Informativo do Grupo Pierre Martin de Espeleologia
Setembro/Outubro - 1990 nº 2

EDITORIAL
Divulgação, intercâmbio e integração. O objetivo do informativo vai se concretizando e nesse nº2 a intenção é consolidar ainda mais este processo. Logo estamos às vésperas do 1º Encontro Paulista de Espeleologia, e cada vez mais os espeleólogos se integram, amadurecendo a idéia de que a união faz a força, superando as mais adversas opiniões à busca de um bom convívio, mobilizando todo o conjunto em prol de um objetivo comum.
Ao mesmo tempo, como veículo de informação que é, o boletim traz , a partir desta edição, artigos que resgatam trabalhos pioneiros, muitas vezes suscitadores de projetos atuais. Nestes estão os projetos do GPME que também passaremos a publicar.
Espeleologia é isso também, e exige constante troca de conhecimentos que por serem ainda escassos, merecem divulgação global. Para preservar é preciso conhecer. Para conhecer é urgente preservar.

Os Editores


VAZÃO DO SIFÃO DO MORRO PRETO
Método do Flutuador
Equipe: Cristina Albuquerque, Ana Claudia, Gelson, Paulo, Roberto, Tonico

Procuramos um trecho no rio em qual a sua profundidade fosse constante e não existíssem pedras no meio que pudessem comprometer demais os cálculos.
Escolhemos então logo na saída do sifão um trecho com 2,49m que foi enquadrado com fios de nylon. Estes fios marcaram a saída e a chegada para posterior cálculo de suas respectivas áreas, assim demos início as cronometragens dos tempos gastos pelos flutuadores para percorrerem o trecho marcado.
Para a execução dos trabalhos dividimos as tarefas como segue:
  • O Soltador - é responsável por soltar as bolinhas de isopor no exato momento que o cronometrista mandar.
  • O cronometrista - é responsável por acionar o cronômetro na saída e chegada, informando ao escriba o tempo gasto.
  • O Escriba - é responsável por anotar tudo o que houve de forma clara e lógica.
  • O Catador - é responsável em não deixar passar nenhuma bolinha para o fundo da caverna.

Após o cálculo de todos os números colhidos em campo chegamos a um valor de 151 litros por segundo.
Sabemos, porém que estes dados não são perfeitos e nem podem ser usados cientificamente. Podemos usá-los para comparações coloquiais em nossos trabalhos de exploração desse sistema.

Num D(m) T(s) VM(m/s) S1 S2 SM(m2) Q(m3/s) Q(f/s)
01 2,47 4,13 0,5980 2,85 2,13 2,49 1,4890 -
02 2,47 4,04 0,6113 2,85 2,13 2,49 1,5221 -
03 2,47 4,05 0,6090 2,85 2,13 2,49 1,5184 -
04 2,47 4,09 0,6039 2,85 2,13 2,49 1,5037 -
05 2,47 3,96 0,6237 2,85 2,13 2,49 1,5530 -
06 2,47 4,17 0,5923 2,85 2,13 2,49 1,4748 -
- - - 0,6065 - - 2,49 1,5101 151 l/s
- - - - - - - 9,0610 -
Onde: Fórmulas:
Q = Vazão em metros cúbicos por segundo SM = ((S1+S2+Sn)/n)m2
VM = Velocidade média em metros por segundo VM = (D(m))/T(s)
SM = Área média em metros quadrados Q = V/T, (m3/s)
D = Distância em metros -
T = Tempo em segundos -

TESTE COM TRAÇADORES NA LIGAÇÃO MORRO PRETO - COUTO
Corante: Fluoresceína
Equipe: Cristina Albuquerque, Ana Claudia, Gelson, Paulo, Roberto, Tonico

Diluímos 5 gramas do corante em 350ml de água e lançamos na saída do sifão do Morro Preto às 14:24 h do dia 27-04-90.
O objetivo não era a caverna e sim a utilização do corante que chega a ser um mistério devido a completa falta de literatura e experiência brasileira no assunto.
Colocamos rio abaixo o fluorcaptor I que consistia de 20g de carvão ativo, dentro de uma meia fina presa com arame e uma pedra submersa no rio, onde a água com certeza passaria e o carvão poderia absorver uma pequena quantidade de corante.
após a passagem do corente pelo fluorcaptor I, este foi retirado e acondicionado em um saco plástico e rotulado. Saímos repidamente da ceverna e instalamos logo após a cachoeira do Couto o fluorcaptor II, seguindo o mesmo critério do primeiro.
Enquanto esperávamos a saída do corante, fizemos um cálculo aproximado do tempo que o corante levaria para sair da caverna. O resultado foi de 15 minutos (tempo x percurso).
Depois de 1 hora de espera notamos uma cor meio esverdeada na água, mas como era muito fraca achamos que era alucinação!
Depois de 2 horas e vinte minutos resolvemos que não era alucinação e retiramos o fluorcaptor II.
No dia seguinte fizemos o teste da imersão dos fluorcaptores I e II em 250 ml de água com 10g de soda cáustica. O corante não foi visto em nenhum dos dois casos.
Concluímos que a quantidade de corante utilizado foi insuficiente para a distância e a vazão do rio. O fluorcaptor também não funcionou para este corante.

por Roberto Rodrigues


PROJETO RICARDO KRONE
Coordenadores:Maria Cristina Albuquerque, Maria Cristina Iha

O projeto Krone nasceu a partir de longas conversas com o Roberto e com o Rogério, que muito nos ajudaram até a elaboração final do mesmo.
Após elaborado, foi apresentado à Secretaria Especial do Meio Ambiente - SEMA, hoje IBAMA, que na ocasião, Nov. 88, pretendia financiar projetos espeleológicos. Por várias razões entre outras políticas, o esperado financiamento não saiu... Mas isto não nos impediu de financiar a pesquisa, propriamente dita, com passos (dinheiro) curtos e para tanto contamos com o apoio dos demais elementos do grupo.
Quem foi Krone ?
Ricardo Krone nasceu em Dresden, Alemanha em 1861. Veio ao Brasil em 1884 estabelecendo-se em Iguape, onde abre uma farmácia. Ao dividir seus trabalhos específicos com pesquisas sobre a região do Vale do Ribeira de Iguape, Krone dá início à espeleologia paulista. Num trabalho desenvolvido juntamente com geólogos do Museu Paulista, São Paulo, veio a descobrir 41 cavernas, sendo a primeira a gruta Pedrões e a última a caverna do Rio Roncador (Santana). Todas elas foram catalogadas, descritas e publicadas no grande trabalho denominado: As Grutas Calcáreas do Vale do Rio Ribeira de Iguape - 1906, em qual também constam importantes estudos paleontológicos e observações referentes a ecologia da região.
R. Krone representa um marco na história da espeleologia apulista, pois a partir de suas pesquisas realizadas puderam outros espeleólogos iniciar as explorações, tornando hoje, indiscutível o potencial espeleológico do vale.
Nosso objetivo:
No trabalho de sistematização inicial verificou-se que das 41 cavernas descobertas por R. Krone, 21 não possuem um documento sequer que comprove sua existência. O nosso trabalho será basicamente isto: comprovar a existência dessas 21 cavernas que não estão cadastradas, através da localização, mapas topográficos e outros meios. Além disso, pretendemos resgatar trabalhos realizados por R. Krone, documentos, anotações e outros dados originais ou não, para constituição de um documentário.

OPERAÇÃO TIJUCO ALTO
Atráz de informações a respeito de uma usina hidrelétrica que será construída pela CBA (Compania Brasileira de Alumínio) em Cerro Azul - PR, contatamos o GEEP Açungui (do Paraná) e marcamos um encontro no sábado, 08 de setembro na praça central de Cerro Azul, para fazermos um reconhecimento da área e fotografias.
Partimos em caravana do rancho do Roberto as 9:00h aproximadamente, em direção a Ribeira, estrada em asfalto porém muito sinuosa e mal conservada. No carro do Helvécio - os Klinke e mais Iha e Marizete se contorciam com medo do "desastrazarão"
Chegamos em Ribeira, cidade pacata, uma linda pracinha. Dali cruzamos o limite SP-PR e estávamos nós em Adrianópolis e o que nos esperava era nada mais que 52 Km de estrada de terra.
No fusca do Tonico, Ery e Mônica seguravam-se firme na passagem de atoleiros, buracos e de vez em quando, gado na pista! E o fusquinha 76 seguia firme com barro até o teto, algumas paradas para colocar óleo e o motorzinho sorria e seguia viagem.
Depois de todo esse chão percorrido chegamos a Tunas. Cidade pequena, mil habitantes, e nos vimos transportados ao velho - oeste norte americano. Casas altas, de madeira, assobradadas com grandes telhados caídos.
Continuamos rumando a Cerro Azul, mais poeira e terra. Chegamos as 13:15 h aonde marcamos com o Açungui. Havía na praça central uma grande festa e todo a população da cidade estava presente. Tentamos localizar o pessoal do Açungui e nada...
Fizemos um lanche no casarão e seguimos em direção ao local onde sería o lago da barragem. Mais estrada de terra à vista e depois de mais de 55 km percorridos chegamos ao bairro Rocha, onde uma mineradora de chumbo atua. Conversamos com os moradores da região sobre cavernas e sobre o bairro que o lago vai inundar todo. Constatamos que a CBA já adquiriu metade dos 43,2 Km2 que serão necessários para fazer a obra (a um preço muito inferior ao real valor das terras). Do bairro Rocha fomos adiante percorrendo e fotografando toda a área de inundação. Um lugar que para poetas não faltaria inspiração e para artistas, as telas seriam sempre poucas.
Grandes paredões de calcário serão inundados e provavelmente junto com muitas cavernas, abismos e sumidouros. Como falou Iha: "A região do lago é um queijo suíço"
No fim do dia chegamos ao local da obra da barragem. (o pôr do Sol estava apaixonante). Há alojamentos para trabalhadores já prontos, com cobertura de telha de alumínio CBA.
Segundo informações de um técnico, na barragem o lago atingirá o nível de 150m de altura e o trabalho de sondagem do solo está em estágio avançado.
E difícil compreender e ver que mais uma vez o interesse econômico e particular se sobrepõe aos menos favorecidos e à Natureza. E a vegetação? E os animais? E as cavernas? Isso tudo não possui vez? Ficaremos apenas estarrecidos ou emprestaremos nossas cordas vocais à este mundo que nos pede socorro?

TRÊS DIAS ENTRE TÉCNICA - História dos Espeleólogos Italianos

escrito por Helvécio

Em início de setembro no bairro da Serra, quatro espeleólogos italianos (Giovani Badino, Giorgio, Lucas, Iacoppo) ofereceram à espeleologia brasileira uma oportunidade de troca de experiências reunindo colegas brasileiros em torno de dois eventos: básico em técnicas verticais e resgate em cavernas.
Do ponto de vista técnico tais cursos se mostraram muito importantes, atendendo ao que se propunham. Apesar da falta de equipamentos e pouco conhecimento técnico dos brasileiros, os cursos tiveram uma dinâmica muito boa, com muito pique dos alunos e muita, muita paciência por parte dos instrutores. Cada acerto era agraciado com um: " Você está muito bonito!", e cada erro era penalizado com cervejas - reramente pagas. O saldo final foram alguns raros elogios à beleza dos participantes e umas trinta dúzias de cerveja.
Merece ser lembrada com destaque especial a projeção de slides, principalmente da espedição Ítalo-Russa ao Uzbequistão (República soviética): fantástico! Naquele país existe um paredão de calcário de - acreditem - 300/400 m de altura por 40 Km de comprimento, todo crivado de cavidades. Uma equipe explorou um dos quarenta quilômetros do paredão, rapelando pela encosta e descobriu de significativo apenas um abisminho de 600m (frustrante, não?!). Outra equipe explorou e topografou Boy Bullock - Imagine : quebra corpo e teto baixo com água a 4oC por muitos quilômetros, sendo algumas centenas de metros para cima e 1300 para baixo; você faria isto? Eu também! Quando vamos?!
Histórias, piadas e brincadeiras e palavrões, muitos palavrões em italiano e em português - um grande intercâmbio - este foi o ambiente do encontro, em qual o ponto mais importante e positivo para nós foi o contato com uma espeleologia muito diferente daquela existente aqui, muito mais madura, estruturada e cooperativa.
O desenvolvimento técnico e a organização da espeleologia italiana estão muito além dos sonhos do brasileiro mais otimista. Tal confronto, em princípio, deveria causar depressão, porém isto não ocorre. Ocorre sim uma sensação de estranha euforia e desejo, uma agradável vontade de vencer os desafios e ir fundo - muito mais que 1300m - em direção à nossa maturidade espeleológica.